“Quero trabalhar com cinema, fazer filmes, ser jornalista ou advogado, conhecer muitos lugares. Eu sou uma pessoa que gosta de muitas coisas”

Ele fala sobre cinema, literatura, educação e participação com tamanha desenvoltura que deixa o interlocutor com dúvidas sobre sua idade. Mas o olhar curioso e o corpo franzino revelam que o dono de tanta informação é um menino de 13 anos, filho da dona Neuda, que gosta de fazer o que toda criança gosta: jogar futebol, andar de bicicleta e ficar com os amigos. 

João Guilherme Chagas Oliveira, adolescente de Itapiúna – cidade distante 123 quilômetros de Fortaleza – encantou os participantes doo 2º encontro de Capacitação do Selo UNICEF realizado em Fortaleza, CE, dia 10 de maio, ao falar de um tema que nem toda criança fala: participação. “Participar de grupos fez toda a diferença na minha vida!”, afirma, relembrando como sua trajetória começou a trilhar um outro rumo quando saiu da escola particular em que estudava e ingressou na escola pública, dando novo significado ao sentido do público e do coletivo. “A escola privada está ali, fechada em si. A pública não. Está aliada ao Estado, está envolvida com projetos e mais projetos. Lá, encontrei espaço de participação e oportunidades que mudaram minha vida”. 

Oportunidades como o Projeto Eu sou Cidadão, Amigos da Leitura, promovido pela Associação para o Desenvolvimento dos Municípios do Estado do Ceará (APDMCE), instituição parceira na implementação do Selo UNICEF no Ceará. O projeto estimulou sonhos, como o de ser escritor, o de conhecer ao vivo os lugares conhecidos apenas nas páginas dos livros, e abriu portas: em 2017, por exemplo, ele participou da Bienal Internacional do Livro em Fortaleza e apresentou a escritora Ieda de Oliveira para um público de mais de mil alunos de todo o Estado.

Seu novo desafio é integrar o Núcleo de Cidadania do Adolescentes (NUCA) e as expectativas são as melhores: "Quero ajudar os jovens de Itapiúna a terem ideias que possam ser aproveitadas pelo município e ao mesmo tempo viver muitos aprendizados pra minha vida". 

E é assim que o menino que organiza seus sonhos de acordo com o tempo (“Tenho sonhos de curto, médio e longo prazos”, ele diz), e que quer ser muitas coisas na vida, vai construindo seu caminho, pregando a participação, a fé no outro e em si mesmo, e superando obstáculos, dia a dia. “Quero trabalhar com cinema, fazer filmes, ser jornalista ou advogado, conhecer muitos lugares. Eu sou uma pessoa que gosta de muitas coisas”, diz.

Há dois anos, ele descobriu ter diabetes tipo 1 e, passada a decepção pelas restrições alimentares que teria dali em diante, resolveu assumir o protagonismo também diante da doença: ele aplica a própria insulina, segue a dieta onde quer que esteja, confere as taxas de glicose sanguínea três vezes por dia, com uma disciplina exemplar. E o melhor de tudo: deu um novo significado a tudo isso: “Eu penso que não serei um adulto obeso ou sedentário já que estou me cuidando e cuidando de minha alimentação”.